Glossário de Termos Musicais

Arranjo, transcrição e edição

“Um arranjo é propriamente uma alteração deliberada da intenção original do compositor e é identificada como tal. Na música coral isto ocorre comumente ao se reescrever para coro uma canção solo ou uma peça instrumental, ou de um coro misto para outro agrupamento coral, a adaptação de um texto inteiramente novo à música, ou a harmonização para coro de uma melodia preexistente tal como uma canção popular ou folclórica”.
“Uma transcrição é propriamente a reprodução literal de uma fonte original em uma nova notação. Isto é normalmente aplicado à música pré-Barroca e é útil apenas ao especialista […] A prática de chamar de ‘transcrição’ uma peça para piano reescrita para orquestra, será difícil de mudar, embora tais adaptações sejam mais propriamente chamadas de ‘arranjos’”.
“A edição ideal de uma peça de música é a que mais acuradamente revela as expectativas do compositor para sua performance.” […] 1. O editor deve incluir tudo o que sobrevive diretamente do compositor ou do mais próximo dele possível. […] 2. O editor deve distinguir com absoluta clareza o que sobrevive do compositor do que ele próprio supriu.” […] “A performance ideal de uma peça musical é a que mais se aproxima das expectativas do compositor para a performance”. COLLINS, 1988, p. 123.

“Há, na verdade, apenas dois requisitos fundamentais para uma edição musical: clareza e consistência”. CALDWELL (1996, pag. 1)

COLLINS, Walter S. “The Choral Conductor and the Musicologist” in: DECKER, Harold A.; HERFORD, Julius et al. Choral Conducting Symposium. 2 ed                                New Jersey: Prentice-Hall, 1988.
CALDWELL, John. Editing early music. 2nd. ed. Bristol, U. K.: J. W. Arrowsmith, 1996.

Baixo Cifrado

Elemento característico de escrita da música Barroca que consiste em uma linha melódica grave cujas notas possuem números acima ou abaixo desta pauta indicando os intervalos acima a serem tocados a partir de cada nota.

Baixo Contínuo

Pequeno grupo de instrumentos característico da realização da música Barroca que consiste em, no mínimo, dois instrumentos: um melódico grave e outro harmônico. Esses instrumentos realizam o Baixo Cifrado. Os instrumentos melódicos graves mais comuns são a viola da gamba, o violoncelo e o fagote. A presença do contrabaixo nesse grupo também era prática, então subindo para 3 o número de instrumentos. Os instrumentos harmônicos mais comuns são o cravo, usado preferencialmente em música secular e o órgão, usado preferencialmente em música sacra. Há evidências que, por vezes, J. S. Bach utilizou-se também de um cravo do qual regia suas obras, mas junto com o órgão e não o substituindo. A escolha dos instrumentos deve ser feita com base nas características musicais da obra e proposta de execução. Um dos erros mais comuns é listar Contínuo como um instrumento nas lista das Forças Musicais de uma obra.

Cantochão

Termo genérico que engloba toda melodia com característica de canto monofônico, prosódico e em latim da liturgia cristã. A maior coleção destas melodias são os Cantos Gregorianos.

Cesura

Pequena interrupção em sonoridade ou fluxo musical caracterizado na partitura por um sinal como vírgula (‘), dois traços diagonais (//) ou um sinal de cunha (\/) acima da pauta. Pode significar ou não uma respiração em música vocal, dependendo da escolha musical, mas tem que haver a interrupção sonora.

Claves de Tenor

A voz do Tenor tem sido escrita em diferentes claves na literatura musical de diversos períodos. As mais comuns estão abaixo representadas com a nota dó3: a) clave de dó na quarta linha, o que significa as notas são escritas na altura real; b) clave de sol oitavada, com as notas escritas uma oitava acima da altura real; c) dupla clave de sol, também com a escrita uma oitava acima; d) clave de sol com indicação da quarta linha, como uma lembrança da clave de dó para tenor, mas com a escrita uma oitava acima; e) clave de sol sem indicação de oitava, mas com texto acima e escrita também uma oitava acima da altura real e f) clave de fá, apesar desta clave ser mais usada para Baixos, em duas pautas a linha do tenor ocupa a parte superior em geral com muitas linhas suplementares quando na tessitura aguda e escrita na oitava real.

                                                                 a)                       b)                               c)                          d)                       e)                       f)        

Col S, Coll’A, Col T e Col B

Indicação que o compositor coloca em alguns instrumentos informando que está tocando a mesma parte das vozes sinalizadas. “Col” significa com em italiano. Quando dobra a contralto usa-se “coll’A” porque Alto em italiano precisa do artigo “a”, então ao invés de escrever “col la Alto”, é costume escrever de modo condensado: “coll’A” ou “coll’Alto”.

Edição

Ato de escrever uma partitura para difundir o acesso a uma obra partir de manuscritos. Possui diversos tipos dependendo da necessidade ou intenção musical. Ver Arranjo, transcrição e edição.

Extensão e tessitura

Dois dos conceitos mais básicos de análise melódica. A extensão é representada por um intervalo musical definido por duas notas: a mais grave e a mais aguda de uma melodia. Exemplo: Parabéns a Você cantado confortavelmente por uma Soprano em Sol Maior tem a extensão de uma oitava justa de ré3 a ré4. Usamos também o conceito de Extensão para falarmos de todas as possibilidades de alturas de um instrumento musical. Livros de Orquestração possuem tabelas específicas de cada instrumento. A tessitura é a região mais usada dentro da extensão melódica e pode-se classificá-la com cinco nomes básicos: 1) grave; 2) média grave; 3) média, 4) média aguda; e 5) aguda. A tessitura depende de qual instrumento (incluindo vozes) está realizando uma melodia. Por exemplo: uma melodia na região média-aguda para um Tenor está numa região aguda para um Baixo.

Forças Musicais

É o conjunto de todos os instrumentos (incluindo vozes) necessários para a realização de uma obra musical. Alguns autores chamam de Forças Orquestrais, que não é um termo adequado por não incluir alguns períodos estilísticos da História da Música, não deixar claro se inclui vozes e não ser inclusivo quanto a outras expressões musicais (música folclórica, música comercial, entre outras). Outros usam Forças Performáticas (veja link). Os instrumentos precisam ser considerados de acordo com suas especificidades, separando necessidades de instrumentos em naipes e necessidades de instrumentos solistas. É uma ferramenta importante para o preparo e realização de uma obra complexa de grande porte, aplicável a todos tipos de expressão musical. Num concerto para violoncelo, por exemplo, faz parte das Forças Musicais um violoncelo solista e um naipe de violoncelos, como duas forças musicais diferentes. Para uma obra vocal, uma contralto solista e um naipe de contraltos precisam ser consideradas em separado. A escrita do compositor faz diferença de níveis de dificuldade e exigência para cada instrumento constante nesse conjunto, por isso a consideração em separado de cada caso. Há sistemas de notação para listagem das Forças Musicais (ver Shorthand for orchestra instrumentation). Sobre Forças Musicais ver http://musica.ufma.br/bordini/orq/docs/orq_hist.pdf.

Forças Vocais

É o conjunto das vozes necessárias para a realização de uma obra vocal. Considera-se por especificidade as vozes de acordo com a necessidade da composição. Vozes solistas e vozes corais possuem diferenças quanto às escolhas de quem compõe. Para sua descrição, usa-se uma notação específica, separando a inicial do tipo de voz solista entre pontos e colocando naipes depois do último ponto. Exemplos: uma obra para duas sopranos solistas e um coro de soprano, tenor e baixo pode ser notada como: S.S.STB; uma obra para soprano e contralto solistas e um coro masculino de dois naipes de tenor, um de barítono e um de baixo pode ser notada como: S.C.TTBrB

Homorritmia

É a qualidade das vozes, numa textura polifônica homofônica, possuírem o mesmo ritmo sincrônico. Quando temos imitação, então numa textura polifônico contrapontística, mesmo que as vozes façam a mesma melodia, não há homorritmia, pois o conceito subentende sincronicidade, sendo só aplicável para texturas polifônico homofônicas.

Estas vozes são homorrítimicas:

 

Estas vozes possuem o mesmo ritmo, mas não são homorrítimicas, pois estão em imitação:

 

Imitação

Quando um material melódico é apresentado em uma voz e aparece em seguida (com os mesmos intervalos internos ou variados) em outra voz. Imitações acontecem entre vozes diferentes.

Imitação real

Quando o material melódico que aparece em seguida tem os mesmos intervalos internos que o material apresentado antes em outra voz.

Imitação tonal

Quando o material melódico que aparece em seguida não mantém os mesmos intervalos internos que o material apresentado antes em outra voz por questões harmônicas.

Improviso

Oportunidade para um executante mostrar suas habilidades de pensamento musical e destreza ao instrumento. É preparado através do estudo e domínio dos diversos elementos musicais que distingue um músico profissional de profissionais em preparação ou amadores.

Isoritmia

Procedimento composicional típico da Idade Média. Ver Color e Talea. Não é um tipo de textura, mas um conjunto de procedimentos composicionais.

Melisma

Uma das quatro relações texto-música que se caracteriza por diversas notas para uma sílaba. Melismas são característicos em melodias Gregorianas e colocados nas palavras mais importantes do texto sacro, como em Alelluia ou Amen. É um dos elementos de expressão emocional presente nos diversos tipos de cantochão.

Melodia

Uma sucessão de alturas que se estabelece como uma unidade de acordo com convenções culturais e estéticas. Em geral possui extensão, tessitura, ritmo simples ou complexo, conteúdo intervalar, conteúdo de notas, elaboração diatônica, conteúdo cromático, estrutura (motivo, frase, período, etc.), contorno melódico, arco respiratório, relação texto-música, cadência melódica, posição métrica (tética, acéfala ou anacrúsica), ornamentação, entre outros.

Sobre estrutura da melodia veja: PISTON, Walter e DeVOTO, Mark. Harmony (Fifth Edition). New York, W.W Norton &
Company, 1987.

Melodia Coral

Nome que se dá à melodia original que é harmonizada em um coral, em especial nos corais do período Barroco. Em corais de J. S. Bach a Melodia Coral está em geral no Soprano. Essa melodia possui características marcantes e genéricas: extensão de aproximadamente uma oitava justa, tessitura média e confortável; ritmo simples; conteúdo intervalar por graus conjuntos e poucos saltos; notas apenas da escala como conteúdo de notas; diatônica;  estruturada por períodos ou grupo de frases, contorno melódico simples, arco respiratório curto que é definido pela pontuação textual e cadências harmônicas, cadências melódicas por graus conjuntos ascendentes ou descendentes, pode ser tética, acéfala ou anacrúsica como posição métrica e não ornamentação.

Monofonia

É uma única melodia realizada em uníssono ou oitava justa. Ver textura.

Monodia

Melodia com acompanhamento livremente elaborado e com escrita idiomática. Ver textura.

Música Historicamente Informada

É toda realização musical com base em pesquisa documental da época da obra musical para a escolha dos elementos musicais, instrumentos e quaisquer outros detalhes que façam diferença na Prática de Execução (Performing Practice).

“Musiquês”

Todos músicos profissionais devem dominar os vocabulários específicos da área. Enquanto que é compreensível que leigos usem palavras informais para falar de música, um profissional deve ser articulado de modo a saber se expressar segundo seu público, adaptando os termos de acordo. Os vocabulários específicos de música são, por vezes, complexos e com detalhes, sendo também diversos quanto mais especificidade for acrescentada. Por exemplo, o vocabulário de música aplicada à infância sobre a questão vocal é muito mais profundo e específico que o vocabulário de música aplicada à infância apenas. Há que se falar de música usando o vocabulário musical.

Polifonia Contrapontística imitativa

Um trecho Polifônico Contrapontístico é chamado de imitativo quando os materiais melódicos entre duas vozes que são apresentadas em tempos diferentes possuem uma relação de similaridade. Essa relação pode ser de diversos tipos e estabelece que o material melódico apresentado pela primeira vez foi utilizado como base para o material melódico que aparece em seguida. Ver textura.

Polifonia contrapontística não imitativa

Um trecho Polifônico Contrapontístico é chamado de não imitativo quando os materiais melódicos entre duas vozes que são apresentadas em tempos diferentes não possuem qualquer relação. O material melódico que aparece em seguida não foi criado a partir do material melódico proposto. Ver textura.

Polifonia Homofônica Elaborada

Numa Polifonia Homofônica, as vozes tem valores rítmicos diferentes entre si. Ver textura.

Polifonia Homofônica Homorrítmica

Numa Polifonia Homofônica, todas as vozes tem valores rítmicos iguais. Ver textura.

Prática de Execução (Performing Practice)

Todos os elementos musicais cuja escolha na realização de uma peça a faça soar mais similar ao que o compositor idealizou e percebeu em sua época.

Quadro de Estudo com Forças Musicais

Ferramenta visual que possui características musicais de um evento musical de maior porte. Esse evento pode ser de qualquer tipo de expressão musical. Separa-se as partes do evento em linhas e nas colunas o efetivo instrumental (considerar vozes também) de cada. Assim como na consideração das Forças Musicais, leva-se em conta a especificidade de instrumento ou escrita de cada instrumento. Ao final obtém-se um panorama da obra musical que pode ser usado para conhecer a estrutura, a articulação entre as partes e mesmo ajudar a otimizar um ensaio. Como fazer em relação às Cantatas em estudo:
a) considere cada instrumento de sopro como 1 por parte
b) considere o quinteto de cordas como naipes: Violinos I e II, Violas, violoncelos e contrabaixo
c) se outros instrumentos solistas forem solicitados (traverso, oboé da caccia, violoncelo piccolo, entre outros), considere em separado
d) veja quais instrumentos farão o contínuo
e) considere as vozes corais juntas usando a sigla (SATB, por exemplo) numa coluna Coral
f) considere vozes solistas numa coluna só
g) coloque na linha cada movimento com seu número e nome (se houver)
h) indique presença de cada instrumento nas respectivas colunas anotando também se houver dobramento (“col S, coll’A, col T, col B“, entre outros)
i) deixe em branco se não houver instrumento presente
j) estando o contínuo presente em toda a obra, retire essas colunas e coloque abaixo da tabela a indicação do Contínuo para a obra toda

Ralentando Escrito

Procedimento composicional no qual um aumento dos valores rítmicos das notas em um ponto cadencial causa a impressão de um ralentando comum.

Relação Texto-Música

Em uma peça vocal, a colocação do texto em relação às notas possui quatro possibilidades: 1) silábica: cada sílaba (ou agrupamento de sílabas como numa elisão) está colocada em uma nota; 2) neumática: cada sílaba (ou agrupamento de sílabas como numa elisão) possui algumas notas; 3) melismática: uma sílaba para muitas notas (ver Melisma); 4) salmódica: diversas sílabas para uma nota (podendo ser prosódico quando indicado apenas com uma nota longa, como uma breve, sobre um texto de um comprimento considerável ou métrico quando se escreve ritmicamente cada nota de altura repetida em valores rítmicos).

Repetição

Quando um elemento melódico aparece novamente da mesma voz. Repetições acontecem numa mesma voz.

Tessitura

ver Extensão e Tessitura.

Textura

Identifica as maneiras que as linhas melódicas se relacionam dentro da obra musical através de procedimentos composicionais. Ver página Textura

Word painting

é a colocação em música de elementos extramusicais. Em música vocal partes do texto podem ter correspondência com a escolha do compositor, como por exemplo, palavras como alto e baixo serem colocadas com notas agudas e graves respectivamente.

 

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